Podem as Criptomoedas Resolver os Problemas da Economia?

Há uma razão para os portugueses acharem que é gasto demasiado dinheiro para salvar bancos:

Desde 2014, a fatura dos contribuintes com a banca ascende a 13 mil milhões de euros.

Ou seja, este é um daqueles casos em que o que parece…realmente é.

Mas desengane-se quem achar que este é um caso único. A história está repleta de ajudas ao sistema financeiro; e em todo o mundo.

Neste momento, estarás a pensar: o que é que isso tem a ver com as criptomoedas?

Tudo. Foi precisamente este sentimento de injustiça que, na sequência da última grande recessão em 2008, levou à criação de uma moeda alternativa, digital e que não fosse controlada por terceiros: a Bitcoin.

Esse sentimento perdura e, para muitos, continua a ser reforçado à medida que os decisores políticos e económicos continuam a utilizar a mesma receita para os velhos problemas.

Numa altura em que a FED, nos estados Unidos, e o Banco Central Europeu, na Europa, continuam a despejar dinheiro para, como dizem, “estimular” a Economia, olhamos o papel que as criptomoedas nesta equação.

1. Contexto Económico

Em Portugal, depois de uma grave crise económica que levou ao colapso de vários bancos, o país vive tempos mais calmos, com a generalidade da banca portuguesa a apresentar resultados positivos.

A Economia portuguesa cresce, o desemprego tem vindo a cair e há, pelo menos aparentemente, um clima de maior calma.

Todos concordarão:

A política monetária tem sido favorável ao desenvolvimento do país: taxas de juro mais baixas, por vezes negativos, empolgaram a Economia e até o Turismo deu um forte empurrão ao desenvolvimento de muitos negócios.

Porém, isto não deixa o país livre de riscos.

O contexto externo é de uma importância extrema e, para além da política monetária, também a geopolítica tem a capacidade de abalar fortemente não só a Economia portuguesa, mas também toda a Economia mundial.

Braço de Ferro Economia EUA China
Guerra comercial entre China e EUA tem marcado mandato de Donald Trump, que enfrentou Pequim de frente.

A guerra comercial entre os Estados Unidos e a China pode ter efeitos extremos e contribuir, inclusive para uma recessão global, numa altura em que surgem já alguns sinais de abrandamento.

O crescimento global previsto pelo Fundo Monetário Internacional para o próximo ano é de 3,6%, abaixo dos 4% verificados em 2017.

Ainda que seja um valor longe dos 2% utilizados para classificar uma recessão, é o próprio FMI que alerta para a existência de riscos que ameaçam a Economia global.

Fundo Monetário Internacional
Fundo Monetário Internacional tem objetivo de promover a cooperação económica entre países.

Por todas estas razões:

Estabilidade, sim. Mas por quanto tempo?

2. O Problema das Injeções Monetárias

Como vimos, a política monetária pode beneficiar a Economia de um país, mas pode também mascarar as suas debilidades.

A nível europeu, as medidas de Quantitative Easing aplicadas pelo Banco Central Europeu, aliadas a uma política monetária agressiva, que passou por cortes constantes nas principais taxas de juro, serviu para manter a Economia europeia animada.

Mas isto pode levar a um caso sério de dependência.

Uma ação, quando é prolongada no tempo, passa a ser encarada como uma norma. Para além de perder o efeito novidade que a torna estimulante, passa a ser um vício.

Mario Draghi e a Bazooka do BCE
Último arsenal de medidas aplicado pelo BCE ficou conhecido como Bazooka.

E o que acontece depois? Se as medidas mais agressivas que o BCE tem ao dispor já foram tomadas, aplicando milhares de milhões de euros na compra e recompra de dívida estatal e empresarial, o que lhe resta?

Nada que não seja mais do mesmo – imprimir mais diheiro. Esta dependência deixa os Bancos Centrais sem armas, sendo que os efeitos das suas políticas tardam em traduzir-se em resultados na Economia real.

Reserva Federal dos EUA
FED é o parente norte-americano do Banco central Europeu.

A situação não é muito diferente nos Estados Unidos. Em setembro, no espaço de semana, a Reserva Federal (FED) injetou 278 mil milhões de dólares no chamado repo market, de recompra de securities, para garantir que os bancos conseguiam cumprir os seus requisitos de liquidez.

Estas medidas, que ao mesmo tempo contribuem para a desvalorização do dinheiro enquanto reserva de valor, levaram Ray Dalio, lendário gestor de fundos, a deixar uma questão pertinente no seu último post intitulado “Paradigm Shifts”.

É uma boa altura para perguntar qual será a próxima melhor moeda ou reserva de valor para ter quando os Bancos Centrais querem desvalorizar as suas moedas num sistema de dinheiro fiat.

Ray Dalio, Fundador Bridgewater Associates

Segundo Dalio, que espera uma descida no valor do dinheiro, o ouro poderá ser a melhor solução para investimentos futuros.

O bilionário norte-americano acredita que o clima geopolítico pode levar a Economia global a entrar num período complicado que levará a uma mudança de paradigma.

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3. A Disrupção do Status Quo

Quer por parte da FED, quer por parte do BCE, não têm faltado medida disruptivas.

O problema é que estas medidas têm quase sempre o mesmo objetivo – injetar dinheiro na Economia através das empresas.

O certo é que a disrupção também pode acontecer de outras formas, através de medidas de apoio direto às famílias.

Apresentamos o conceito de Helicopter Money.

Helicopter money
A ideia baseia-se na distribuição de dinheiro pela população para estimular a Economia.

Trata-se de uma medida de política monetária não menos disruptiva mas que, em vez de colocar recursos na compra de dívida soberana e empresarial, aloca-os ao povo.

O racional acaba por ser o mesmo do de outras medidas: ao aplicá-la, um Governo acredita que está a dar pujança à Economia.

Medida pouco convencional? Sim. Impossível? Não.

A Finlândia já a aplicou no passado, distribuindo montantes de 560 euros por um total de 2.000 desempregados.

No fundo, o que está em causa é a equidade das medidas tomadas por parte dos decisores políticos. As medidas do costume levaram a uma descrença geral que, como vimos, levou inclusive à criação da Bitcoin em 2008.

Também por isso, a recente decisão da FED suscitou grande debate no Crypto Twitter, baseada numa questão central – porquê segurar empresas com problemas estruturais e mal capitalizadas?



A reação imediata de muitos foi apontar para a Bitcoin como a solução para este problema.

O conhecido investidor e analista Anthony Pompliano também questionou a decisão da Reserva Federal.



A ideia que fica é que o sistema atual tem optado por imprimir dinheiro para resolver os problemas da Economia. Com uma moeda como a Bitcoin isso não seria possível: nunca irão existir mais do que 21 Milhões de BTC.

4. Papel das Criptomoedas na Economia

Podem as criptomoedas ser a solução para os problemas e riscos que a Economia enfrenta?

Vamos por pontos:

4.1 Guerra comercial EUA-China

Neste caso concreto, o problema é que as empresas norte-americanas (e não só) têm dificuldade em operar no mercado chinês, devido ao controlo feito pelo país, que dá clara preferência às empresas locais, ao mesmo tempo que cria barreiras às externas.

Ora, isto vai contra a lógica aplicada pelos EUA, que privilegiam um modelo económico aberto.

Bitcoin Plano B
Um dos cartazes espalhados pelos EUA que aponta a Bitcoin como o plano B, face a riscos como a guerra comercial entre a China e os EUA.

A Bitcoin, ou outra criptomoeda, pode servir para contornar as medidas de controlo impostas pela China ao seu povo, fazendo com o que o Governo deixe de ter controlo sobre o capital transacionado.

Isto poderia pressionar a China a praticar medidas menos protecionistas, o que anularia parte do motivo deste confronto.

Claro que, sentindo a perda de controlo, provavelmente a guerra passaria a ser travada com as criptomoedas, sendo que a China já tem a sua própria criptomoeda a caminho, para evitar eventuais sobressaltos.

4.2 Crises no sistema financeiro

A Bitcoin foi criada no meio de uma crise mundial e, por isso, com o objetivo criar um sistema alternativo ao vigente.

No entanto, é incerto o que poderá acontecer caso uma crise como a de 2008 se repita.

A sociedade, como um todo, continua muito dependente dos bancos, pelo que seria improvável que os decisores políticos não repetissem a receita da década passada.

Porventura, o maior benefício da Bitcoin seria oferecer à população uma reserva de valor alternativa.

4.3 Injeções de dinheiro

A este nível, as criptomoedas podem ter um papel importante precisamente por serem descentralizadas.

Para perceber isto, é necessário entender primeiro porque razão, independentemente dos custos, os decisores políticos seguram bancos até ao último esforço:

Os bancos são responsáveis pelos depósitos da populações e pela existência de dinheiro em ATMs, por exemplo.

Imagina o que é toda uma sociedade ficar impossibilitada de aceder às suas conta ou de levantar dinheiro nos ATMs. O sistema em que vivemos colapsaria.

Em grande parte o que está por detrás das decisões dos Governos é uma necessidade de assegurar a confiança no sistema.

Moedas digitais não sofrem deste problema, pois não requerem que exista um banco que assuma a responsabilidade de lidar com os depósitos, enquanto as transferências e acesso às mesmas depende da responsabilidade de cada um.

Ou seja:

Uma Economia em que as criptomoedas fossem o principal meio de troca e reserva de valor estaria menos depende de medidas que passem pelo salvamento a todo o custo de bancos.

5. Conclusão

  • A forma como as sociedades atuais estão construídas torna quase impossível que as medidas de política monetária deixem de passar por estímulos económicos focados nas empresas;
  • De modo a garantir a estabilidade e a confiança no sistema financeiro, é provável que, no futuro, a receita volte a ser a mesma sempre que existam problemas na Economia;
  • Uma coisa é certa: um sistema não pode estar totalmente bem quando são consumidos tantos recursos apenas para manter a normalidade. As criptomoedas e a Blockchain têm, por isso, o mérito de oferecer uma nova perspetiva sobre a sociedade em que vivemos;
  • As criptomoedas podem resolver vários problemas das sociedades atuais, sendo que isso passa, inevitavelmente, por um menor controlo por parte dos Governos, o que não os agrada.



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