“A Bitcoin Ainda é a Melhor Moeda” – Entrevista a António Vilaça Pacheco, Autor do Livro «Bitcoin»

Investigador, empreendedor, investidor em criptomoedas e escritor. As várias atividades que desenvolve, alimentadas pela paixão por tecnologia e projetos disruptivos, terão, certamente, contribuído para o lançamento do livro «Bitcoin», o primeiro sobre criptomoedas em Portugal, e que chega agora à sua 2ª edição.

António Vilaça Pacheco tem promovido o debate sobre criptomoedas no país e contribuído para o aumento da literacia em relação a um tema por muitos esquecido.

Por estes motivos, tem uma visão única sobre este ecossistema em Portugal e sobre o caminho que o mesmo deve seguir. É ainda autor do Podcast Bitcoin Talks e responsável pelo Blog Blockchain Starter.

Em entrevista ao CriptoInvest, António Vilaça Pacheco falou-nos sobre o seu livro, abordou o presente e o futuro da Bitcoin, contou-nos o que espera da Libra e ainda nos falou sobre a oportunidade perdida que as criptomoedas poderão representar para Portugal.

Entrevista a António Vilaça Pacheco


Livro Bitcoin, de António Vilaça Pacheco
Capa do livro de António Vilaça Pacheco.

Em primeiro lugar, queremos dar-lhe os parabéns pelo livro pioneiro que publicou em Portugal. Que feedback tem tido por parte dos seus leitores e da comunidade de criptomoedas?

Obrigado. Confesso que fiquei surpreendido. Não me considero um escritor profissional e, conforme indico no livro, ele foi uma consequência de uma combinação de variáveis imprevistas.

Na altura fez sentido como consequência, porque tinha uma grande vontade de o ver cá fora. E hoje faz ainda mais sentido pela excelente aceitação do livro e pelo carinho que tenho tido por parte de todos os leitores.

Eu não esperava sequer feedback. Muitas vezes as pessoas vivem distantes dos autores e esse contacto muitas vezes não existe. No meu caso, todas as semanas continuo a receber mensagens que me deixam grato pelo trabalho que fiz, e a energia que me devolvem é muito boa.

Algumas mensagens chegam a emocionar pela honestidade e transparência das pessoas. Foi das coisas mais gratificantes que fiz nos últimos tempos.

As vendas do seu livro podem quase servir de barómetro ao interesse dos portugueses em Bitcoin e outras criptomoedas. Nota um interesse crescente? Já tem uma nova edição do livro na calha?

Curiosamente acaba de sair para o mercado uma nova edição. No entanto, não acho que o livro sirva de barómetro. Tenho plena consciência de que há um interesse crescente e que cada vez mais pessoas vão aprender o que é.

Mas as criptomoedas vivem como, todas as outras coisas, de picos… de altos e baixos e de momentos de maior e menor energia. Acho que estamos a viver um momento de menor energia nas criptomoedas.

Já comparou a invenção da Bitcoin à da Internet, sendo que esta última veio a revolucionar por completo a sociedade moderna. De 0 a 100 quão próximo estará a Bitcoin de atingir o seu potencial?

Nas minhas palestras tento ser muito claro no que são crenças e no que são as realidades. Nós somos seres emocionais. E por vezes deixamos que o nosso entusiasmo tome conta das nossas crenças, mesmo quando elas são apenas crenças. Eu não quero fazer isso nas palestras que dou ou nos artigos que escrevo.

O mundo não evolui numa linha recta. A história é a nossa melhor conselheira quando queremos olhar para o futuro. Quando refiro essa comparação, refiro-me à capacidade de aplicação. A revolução que a Bitcoin (e a blockchain como um todo) pode fazer na humanidade é provavelmente maior do que a da internet. Mas isto não significa que aconteça obrigatoriamente. É um potencial.


Bitcoin, a primeira criptomoeda
Bitcoin, a criptomoeda-mãe.

Costumo dizer que é uma janela que se abriu… agora resta saber se a humanidade vai querer olhar através dela ou não. Se, de facto, esse for o caminho escolhido pela sociedade e pelos elementos que a vão regular, então diria que nessa escala de 0 a 100, estamos claramente abaixo do 10. 

Mas atenção: há sempre a possibilidade de ser uma oportunidade gorada. Depois de uma invenção não vem o vazio. Depois de uma invenção vem outra invenção. Não há estágios ótimos de desenvolvimento. Há fases. Há percurso. Há evolução.»

“A revolução que a Bitcoin (e a blockchain como um todo) pode fazer na humanidade é provavelmente maior do que a da internet. Mas isto não significa que aconteça obrigatoriamente. É um potencial.”

António Vilaça Pacheco
António Vilaça Pacheco uma apresentação
António Vilaça Pacheco durante uma apresentação.

No que toca a comparações com a Internet, um pensamento provocante que encontramos algumas vezes é o de que “a Bitcoin está para as criptomoedas como o Yahoo está para a Internet”. Uma alusão ao enorme sucesso e dominância que o Yahoo teve nos primórdios da Internet, sendo que mais tarde acabou por ser suplantado por outras empresas como a Google – que acabaram por construir um produto melhor e mais adequado ao panorama digital. Acha que poderá acontecer o mesmo com a Bitcoin? Existe alguma altcoin que poderá um dia destronar a Moeda Mãe?

O pensamento exposto é um pouco “manipulador”. Repare que quando comparo a Bitcoin à internet, não me refiro a ela como “empresa” que usa a internet, mas sim à estrutura criada, à capacidade. O revolucionário na internet não é o que está lá dentro. É antes disso, a tecnologia que conecta todo o mundo em tempo real. Que coloca toda a gente a falar, em todo o mundo todos com todos.

Altcoins, descendentes da bitcoin
Altcoins, as descendentes da Bitcoin.

Ora o Yahoo era um serviço que se servia dessa estrutura para prestar o seu serviço. A analogia não é a mesma. Seria como se agora falássemos de uma empresa que usa a Bitcoin para fazer algo, e depois revela não ser a dominadora do seu serviço.

Mas não é a mesma comparação e eu não concordo com essa comparação exatamente por isso. Porque é comparar “alhos com bugalhos”.

A resposta anterior acaba por responder um pouco a esta pergunta. Pode acontecer que a Bitcoin seja ultrapassada. Tudo pode acontecer e, quem achar que não pode, terá certamente alguns blindspots. Mas não vejo neste momento nenhuma outra altcoin, coin, token ou criptomoeda capaz de destronar a Bitcoin.

A Bitcoin ainda é a melhor moeda para fazer o que faz. E não adianta estarmos a defender “clubites” porque criptomoedas não devia ser futebol.

A Bitcoin é a maior criptomoeda, a que tem maior difusão, a que tem maior rede e consequentemente a que lidera todo o mercado. É a moeda que regula o mercado e dita o preço de mercado. É a moeda influente em todo o ecossistema.

Podemos entrar em muitas conversas e muitos detalhes. Mas as exceções são exatamente o que confirma a regra. A Bitcoin não é a melhor moeda para todas as coisas. Mas é importante perceber que a Bitcoin foi a moeda que criou e tornou possível todo o conceito.

“A Bitcoin ainda é a melhor moeda para fazer o que faz. (…) A Bitcoin é a maior criptomoeda, a que tem maior difusão, a que tem maior rede e consequentemente a que lidera todo o mercado. É a moeda que regula o mercado e dita o preço de mercado.”

António Vilaça Pacheco

E a Libra, a criptomoeda do Facebook, será uma ameaça à Bitcoin? Ou será a “maré que levanta todos os barcos”?

Não acredito nem num cenário nem noutro. As coisas são um pouco mais complexas do que isso. Há muita coisa a ter em conta e há muitos caminhos possíveis. Neste momento, nem há grandes certezas de que seja possível avançar com a moeda. Pelo menos, não nos termos apresentados. Talvez não seja possível já… em toda a extensão da “ideia” por trás da moeda. No entanto, se a moeda chegar a acontecer, o mundo vai mudar profundamente. Disso, não tenho a menor dúvida. Será fraturante.

Acabo de preparar um conteúdo acerca da Libra, a moeda do facebook. É um pequeno ebook que disponibilizo de forma gratuita a todos os compradores do meu livro ou a todas as pessoas que se inscrevam na minha newsletter em www.blockchainstarter.io. O site onde a minha equipa vai tentando atualizar o meu trabalho relativamente a criptomoedas e palestras. 

António Vilaça Pacheco
António Vilaça Pacheco.

“(…) se a moeda (Libra) chegar a acontecer, o mundo vai mudar profundamente. Disso, não tenho a menor dúvida. Será fraturante.”

António Vilaça Pacheco

Acha que os bancos vão conseguir realmente tirar partido da tecnologia Blockchain? Ou estão simplesmente a adotá-la para não perderem este “comboio”?

Tenho-o referido nas minhas palestras e tenho explicado também o porquê. Os bancos são estruturas lentas por feitio. A sua estrutura é rígida e burocrática, e as garantias e responsabilidades dos bancos não permitem a agilidade necessária para acompanhar as fintechs sequer. Menos ainda as empresas do mundo crypto. No entanto, há muita gente enganada. Vários dos maiores bancos mundiais estão por trás dos maiores exchanges mundiais. Eles não estão diretamente envolvidos como bancos. Mas quem os domina domina também os exchanges. Já têm um pé em cada lado do jogo.

A questão de tirar proveito da tecnologia é relativa. A própria questão do que é ou não uma blockchain é filosoficamente questionável. Uma rede privada não é uma blockchain. Poderá ser um instrumento útil para um banco ou em termos interbancários. Mas é toda uma conversa cheia de armadilhas. Em última instância a resposta é claramente SIM. Quanto a adoptarem só para não perder o comboio, já não tanto. Depende do nível a que estamos a falar. Internacional ou nacional. Há ainda muito desconhecimento sobre a matéria.  

Quanto ao debate da descentralização, de facto a Bitcoin é uma moeda que não pode ser controlada por nenhuma entidade, mas que vê a sua mineração ser maioritariamente controlada por grandes mining farms na China – isto apesar das notícias sobre a proibição da atividade no país. Podemos afirmar que a BTC ainda é descentralizada? A visão inicial de Satoshi está a ser cumprida?

Teríamos que perguntar ao Satoshi se esta era a visão dele. A visão que está escrita é uma visão romântica e de certa forma utópica. De algo que poderia “aliviar” a sociedade de muitos dos seus problemas atuais. De muitos dos seus desequilíbrios. A mineração sendo pública, é sempre “corrigível”. E sempre que isso for um problema e esteja claro à vista de todos, isso não é um problema.


Satoshi Nakamoto, criador da bitcoin
Identidade de Satoshi Nakamoto é um mistério.

O problema atual está mais relacionado com “o que não sabíamos”. Ou o que sabíamos mas vivíamos a assumir que não precisávamos de saber. Ou que fingíamos não ver. Com a Bitcoin isso é impossível. As manipulações e os controlos vão ser evidentes. E quando falharem vai ser claro que falharam. Parece-me que isto é o mais importante de reter. 

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Vemos o António muito ativo como speaker em conferências sobre criptomoedas. Qual é o seu sentimento sobre o crescimento deste mercado em Portugal? Acha que a tendência crescente de alguns comerciantes adotarem a Bitcoin como forma de pagamento no nosso país vai continuar?

Eu não tenho números sobre o crescimento de comerciantes. Por acaso gostava de ter. Faço o convite a que todos os que leiam o artigo se manifestem e me façam saber que aceitam. O crescimento é fundamental para que as criptomoedas continuem a existir. E a circulação de moeda é fundamental para que se tenha uma moeda. Neste momento não se tem ainda uma moeda. Falta a adopção. Está longe do que tem que acontecer para funcionar.

António Vilaça Pacheco Speaker
António Vilaça Pacheco durante uma apresentação.

Já existem alguns projetos portugueses de criptomoedas ou baseados em Blockchain. Destaca algum?

Não quero destacar nenhum. Não seria justo. Quero conhecer todos os projetos e tudo o que fazem, mas é muito difícil estar a par de tudo. A nova temporada do meu podcast é precisamente para dar a conhecer projetos. Mas confesso que entre as minhas funções é difícil dedicar o tempo necessário a descobrir toda a gente a trabalhar nos projetos. Somos no entanto um país pequeno e estamos a ficar para trás no assunto de criar as condições para este mercado florescer em Portugal. Já o tenho dito e escrito. É uma oportunidade interessante que não estamos a saber aproveitar estrategicamente.

“Somos no entanto um país pequeno e estamos a ficar para trás no assunto de criar as condições para este mercado florescer em Portugal. (…) É uma oportunidade interessante que não estamos a saber aproveitar estrategicamente.”

António Vilaça Pacheco

Portugal tem sido destaque a nível internacional pela sua política “sem impostos” para criptomoedas. Acha que o país pode ganhar com este rótulo? De que forma?

Acho que não. Acho que é irrelevante. Calhou de sair lá fora, e hoje em dia muita imprensa vive do copy-paste. Acho que é bastante irrelevante porque é inconsequente. Repare que trata-se de que rótulo? Que os particulares podem comprar moedas e não pagam impostos? De que é que isso serve para uma empresa?

Não tem qualquer consequência estratégica para o país. Nenhuma empresa tem interesse nesse cenário nem nenhum particular virá viver para Portugal porque pode comprar criptomoedas e vender sem pagar impostos. Até porque se essa for a sua atividade profissional, ele pagará impostos sobre isso. Portanto nem para profissionais de compra e venda a notícia é relevante. É mesmo só para particulares.


Futuro das Criptomoedas
Criptomoedas têm pouco mais de 10 anos.

Para si, o que é que vale mais nas Criptomoedas, a ideologia que as sustentam ou o potencial para investimento?

O investimento é uma disciplina. Não um golpe de sorte. Ser bom investidor é saber investir continuadamente no tempo e tender para resultados positivos e estáveis ao longo do tempo.

As criptomoedas não conseguem cumprir a definição de investimento por si só. Vejo no entanto que as criptomoedas podem fazer parte de uma carteira de investimento e ter um papel bastante relevante nela.

“Valer mais” depende da cabeça de cada um. Eu pessoalmente acho que tem muito mais valor corrigir problemas no mundo do que eu pessoalmente ficar bilionário. Portanto claramente o valor tem que estar do lado da ideologia. O que me atrai nas criptomoedas é o que elas possibilitam em termos de humanidade. 

“Eu pessoalmente acho que tem muito mais valor corrigir problemas no mundo do que eu pessoalmente ficar bilionário. Portanto claramente o valor tem que estar do lado da ideologia. O que me atrai nas criptomoedas é o que elas possibilitam em termos de humanidade.”

António Vilaça Pacheco

Para finalizar António, quais são as criptomoedas no Top 3 do seu portfólio? 

Preferia não falar do meu portfolio. Mas acho que a Bitcoin é uma moeda muito importante hoje. Por todos os motivos descritos. Há outras moedas que vão tender a resolver muitos outros problemas, como o Ethereum. A criação do Ethereum é genial. No entanto, refiro estas moedas não como moedas para investimentos, mas sim como moedas para resolver coisas.

Os valores por vezes são irrelevantes porque elas não dependem do valor para executar o seu objetivo. Essa é outra das coisas que era bom ajudar a clarificar. Gostaria de me ficar por estas duas em termos gerais porque considero que não são sequer competidoras entre si. A Bitcoin precisa do valor para existir. O Ethereum é uma plataforma onde o valor circula, nasce e se executa. Costumo compará-lo com um software como o Windows ou o iOS, que nos permite instalar outro software para executar tudo o que precisamos. É genial e é todo um novo ecossistema.


O CriptoInvest agradece ao António Vilaça Pacheco a participação nesta entrevista e a oportunidade de nos dar a conhecer ainda melhor a sua visão sobre este admirável mundo novo, que é o das criptomoedas.




2 comentários

  • António Pereira da Cruz Maia

    Excelente artigo.
    Noto que a sua visão sobre criptomoedas é clara, objectiva e cientificamente evoluída, mas sensatamente partilha das reservas que o futuro do Mundo pode trazer. Parabéns.
    Gostaria de saber como e onde posso adquirir o seu livro “BICTOIN”
    Cumprimentos.
    António Maia

  • Olá,
    Muito grato pelos seus comentários e elogios. Espero que tenha uma boa leitura.
    Pode comprar no site da editora : Vida self . com , ou pode comprar na Fnac , e em todas as livrarias do país.

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