Libra: a Criptomoeda do Facebook – Tudo o Que Precisas Saber

O Facebook revelou, finalmente, os detalhes da sua criptomoeda: a Libra. Esta moeda vai permitir comprar coisas ou enviar dinheiro para qualquer pessoa, de forma praticamente grátis, através de aplicações como o WhatsApp ou Messenger – como se fosse enviar uma mensagem.

Neste artigo damos-te a conhecer tudo sobre a criptomoeda do Facebook, a rede social que atualmente conta com 2,38 mil milhões de utilizadores ativos pelo mundo todo – estimadamente 30% da população mundial.

A missão desta moeda passa também pela inclusão financeira de cerca de 1,7 mil milhões de pessoas em países com economias desfavorecidas.

Estes números levam a que, naturalmente, o lançamento desta moeda possa ser um momento histórico e com grandes implicações económicas a nível mundial, embora de momento ainda seja cedo para contemplar consequências no sistema financeiro, pois esta moeda só será lançada em 2020.

Introdução

Qualquer pessoa poderá comprar Libra, mas ao contrário de outros investimentos em criptomoedas, o seu valor será fixo – é uma stablecoin. Esta reduzida volatilidade de preço significa que a Libra não será um bom ativo financeiro para quem procura lucrar com as variações de preço das criptomoedas.

O câmbio da Libra poderá ser feito de forma privada online ou em pontos locais de compra e venda, como quiosques ou lojas. As compras com esta criptomoeda poderão depois ser feitas recorrendo a carteiras virtuais, ou seja, aplicações que armazenam as moedas compradas, como será o caso da Calibra, a carteira oficial do Facebook que estará automaticamente disponível no WhatsApp.

A visão da Libra é de criar uma moeda digital verdadeiramente global, com condições que a permitam ser usada em comércio por todo o mundo, sem limites impostos por fronteiras, taxas ou problemas de escalabilidade.

Da mesma forma que o PayPal democratizou o acesso a um sistema financeiro há 20 anos recorrendo à tecnologia da Internet, a Libra pretende fazer o mesmo nos tempos modernos, desta vez, recorrendo à blockchain.

Como já é o caso com várias criptomoedas do mercado, a Libra conta com um whitepaper onde são detalhados todos os aspectos da criação e funcionamento da moeda.

Já existe, inclusive, uma testnet onde estão são realizados testes à blockchain da criptomoeda do Facebook, que recorre à sua própria linguagem de programação: Move. Criadores de programas na blockchain da Libra terão de obedecer às leis e regulações na jurisdição em que operam – a blockchain em si não será regulada.

calibra - carteira de libra
Calibra – carteira virtual para enviar e receber Libra

Quem controla a Libra?

É uma pergunta muito comum entre os entusiastas de criptomoedas, que valorizam a descentralização que criptomoedas como a Bitcoin podem trazer ao sistema financeiro.

O Facebook não vai ter controlo total sobre a “sua” criptomoeda. Ao invés disso, terá direito a um único voto na sua governância, tal como todos os outros membros fundadores da Libra Association, que incluem grandes nomes como a VISA, Vodafone, Uber, Spotify e a Farfetch (fundada em Portugal).

Atualmente são 28 membros fundadores, mas o Facebook espera atingir os 100 membros até o lançamento oficial da moeda.

Cada uma destas empresas parceiras investiu 10 milhões de dólares no projecto para pertencer à Libra Association, que vai promover e desenvolver a blockchain da Libra, bem como aceitar negócios que queiram usar a Libra como meio de pagamento e até dar descontos e recompensas aos seus clientes.

libra association - parceiros
28 membros iniciais da Libra Association

Notavelmente, o Coinbase – um dos maiores portais de compra e venda de criptomoedas – também está na lista dos membros fundadores da Libra.

O Facebook vai ainda erguer uma empresa subsidiária chamada Calibra, responsável por lidar com as transações e proteger os dados privados dos utilizadores. Os pagamentos efetuados com Libra nunca ficarão associados aos perfis de Facebook, de forma a prevenir publicidade invasiva!

Da mesma forma, a tua verdadeira identidade nunca vai estar ligada às transações publicamente visíveis na blockchain da Libra.

Contudo, e como seria esperado, o Facebook e os restantes membros fundadores da Libra Association vão ter benfícios monetários ao receber juros sobre o dinheiro que os utilizadores depositam, que será mantido em reserva para estabilizar o valor da Libra.

Centralizado? Descentralizado?

Moeda Zuckerberg

Esta jogada ambiciosa do Facebook e restantes parceiros em criar uma criptomoeda com utilização global, inclui um grau de descentralização e privacidade acima do que era esperado.

Tudo leva a crer que a grande rede social, liderada por Zuckerberg, não vai ter privilégios sobre os outros membros fundadores no que toca à gestão da criptomoeda Libra.

Se o número de membros da associação efetivamente chegar a 100, então cada um deles terá direito ou a 1 voto, ou a 1% de todos votos da governância da blockchain – seja qual for maior.

Porém, é importante ter em conta que a Calibra, empresa responsável por supervisionar as transações desta criptomoeda, é uma sucursal controlada pelo Facebook.

A sede da Libra Association será em Genebra, na Suiça, onde todos os seus membros se reunirão a cada dois anos.

Para pertencer à associação, uma empresa tem que cumprir com pelo menos dois destes critérios:

  • 1.000$ milhões de dólares em valor de mercado ou 500$ milhões de dólares em saldo de clientes;
  • Alcance de 20 milhões de pessoas por ano;
  • Ser reconhecido como um dos Top 100 de líderes de indústria por um grupo como a Interbrand Global ou S&P.

O Facebook também aceita, no entanto, organizações de investigação como universidades e empresas sem fins lucrativos que cumpram com pelo três dos seguintes critérios:

  • Trabalhem na inclusão financeira por pelo menos cinco anos;
  • Alcance multi-nacional a grande número de utilizadores;
  • Designação Top 100 pela Charity Navigator ou semelhante;
  • 50$ milhões de dólares em orçamento.
Libra Association – uma organização independente sem fins lucrativos.

A associação será ainda responsável por recrutar novos membros para o seu círculo, que possam atuar como elementos importantes da blockchain, angariação de fundos, desenhar programas de incentivos para recompensar pioneiros na adoção da Libra e também garantir um impacto social positivo.

De forma resumida, as funções desta associação asstenam em: governância, implementação e estratégia.

Ao evitar ser proprietário exclusivo com domínio total sobre a moeda, o Facebook pretende amenizar relações com grandes entidades reguladoras mundiais, que naturalmente, terão esta iniciativa sobre vigilância pesada – em grande parte, graças ao histórico de incompetência rede social em lidar com dados privados dos seus utilizadores.

“Estamos abertos a inquéritos públicos e comprometidos a dialogar com reguladores e legisladores. Partilhamos o interesse em manter a estabilidade económica das moedas nacionais”

Libra Association

Como funciona o preço da Libra?

Tal como referimos, a Libra vai ser uma stablecoin, cuja unidade será igualmente designada por Libra, representada pelo símbolo .

Para leitores familiarizados com o mercado das criptomoedas, a noção de uma stablecoin poderá despertar memórias associativas com o Tether (USDT). E com razão, uma vez que o Tether é uma moeda digital, cujo valor está sempre fixo no dólar americano; não tendo por a voltailidade caraterística de outras criptomoedas.

A Libra foi desenhada de forma a que o seu preço seja estável, ou pelo menos pouco volátil, tornando-a por isso, num bom meio de transferência monetária.

Comerciantes não têm de se preocupar se o que receberem hoje vai valer menos amanhã.

Para isso, o valor do Libra está vinculado a um conjunto de depósitos bancários e títulos do governo de curto prazo para uma série de moedas internacionais historicamente estáveis, incluindo:

  • Dólar americano ($);
  • Libra esterlina (£) – moeda do Reino Unido;
  • Euro (€);
  • Franco suíço (₣);
  • Iene japonês (¥).

No entanto não é garantido que as flutuações não existam. Uma vez que as moedas a que a Libra estará vinculada também sofrem variações, será de esperar que o preço da Libra venha a sofrer flutuações de preço também.

variação de preço Euro/Dólar
O par Euro/Dólar teve uma variação de preço de 21% ao longo de um ano e meio entre 2017 e 2018.

A composição deste conjunto de moedas poderá ser alterado pela Libra Association, caso necessário, para mitigar possíveis flutuações no preço da sua moeda, de forma a zelar pela sua estabilidade.

Ainda é desconhecido o valor exato inicial que a Libra vai ter no seu lançamento, mas antecipa-se que vá ser perto de uma das moedas governamentais mencionadas. A troca de Euros por Libras poderá ser feita nas próprias carteiras virtuais do Facebook e Whatsapp (a Calibra), ou em revendedores locais.

Reserva da Libra – será o Facebook um futuro Banco Central?

Para entender como a Libra vai conseguir manter o seu valor estável, é preciso perceber como será gerida a reserva monetária que irá apoiar esta criptomoeda.

A Libra Reserve vai ser gerida pela sua associação, Libra Association, que como já vimos, é constituída por um grande número de empresas parceiras. Desta forma, é injusto alegar (como temos visto) que o “Facebook vai ser um Banco Central“.

Numa analogia deste género o correto é afirmar que o banco central vai ser a Libra Association.

É um dos grandes motivos pelo qual a criação desta criptomoeda tem despertado interesse por de várias figuras ilustres do mundo das criptomoedas.

Como funciona então a gestão da Reserva da Libra?

Cada vez que alguém trocar um Euro por uma Libra, esse dinheiro será guardado na Reserva, e o seu valor equivalente em Libra será forjado na blockchain da criptomoeda e cedido à pessoa que fez a compra.

Do lado inverso, quanto alguém trocar Libras por Euros, as Libras devolvidas serão destruídas e a pessoa recebe o equivalente em Euros na sua carteira.

Com isto, a totalidade do valor das Libras em circulação sera colateralizado com dinheiro real, garantindo estabilidade financeira desta moeda.

Libra Investment Tokens

Haverá ainda mais uma moeda no ecossistema da Libra, o Libra Investment Token. Estes security tokens serão fornecidos aos membros que pagem os 10$ milhões mínimos para pertencer à Libra Association.

O número destes tokens recebidos por essas empresas será equivalente à proporção do dividendo que eles ganham dos juros sobre os ativos na reserva.

Esses dividendos só são pagos após a Libra Association usar os juros para pagar despesas operacionais, investimentos no ecossistema, investigação e doações para entidades sem fins lucrativos ou outras organizações.

É aqui que reside o interesse em ser um dos membros da Libra Association – nos juros monetários recebidos. Se a Libra realmente for usada em escala global, a sua reserva vai ter um crescimento brutal, traduzindo-se em ganhos significantes para os membros da associação.

Blockchain da Libra

Assim como acontece com a Bitcoin ou Ethereum, todos os pagamentos com Libras serão permanentemente registados (transações são irreversíveis) na sua blockchain – uma base de dados descentralizada, que irá conseguir lidar com até 1.000 transações por segundo.

Este número de transações por segundo é significativamente maior do que as que é possível de se concretizar na rede da Bitcoin (7) e do Ethereum (15). No entanto, criptomoedas como a Ripple já conseguem ir até 1.500 transações por segundo.

O funcionamento e verificação de integridade da blockchain da Libra será assegurado pelos membros da Libra Association, que ao pertencerem à associação, têm a possibilidade de ser um node (nó) da rede.

Blockchain da Libra

Algoritmo de consenso

Cada vez que uma transação é submetida, cada um desses nodes verifica a validade dessa transação consoante o seu registo de todas as transações (todos os nós da rede têm uma cópia desse registo de transações).

Graças ao algoritmo de consenso utilizado, conhecido como Byzantine Fault Tolerance (BFT), apenas dois terços das entidades validadoras de transações precisam de estar de acordo quanto à legitimidade da transação submetida, para que esta seja executada.

As transações não serão inteiramente gratuitas. Haverá uma pequena taxa, cujo valor é, no entanto, de menos de um cêntimo.

Isto será válido para quem quiser transferir dinheiro de Lisboa para o Porto, ou de Buenos Aires para Tóquio. Esta taxa servirá apenas para cobrir custos operacionais da transação e não para enriquecer os membros da Libra Association.

Embora esta taxa seja insignificante para os utilizadores, é o suficiente para impedir ataques informáticos à rede que tentem gerar milhões de transações de forma a congestionar a blockchain e torná-la inutilizável.

A Libra Association procurou juntar o melhor de vários tipos de blockchains para conseguir criar a melhor estrutura possível para a sua criptomoeda.

Contudo, apesar do esforços feitos, a blockchain da Libra será uma rede “fechada” (pelo menos numa fase inicial). Nestes casos, apenas certas entidades que cumpram certos requerimentos serão admitidos a um círculo fechado que controla a governância e consenso dessa blockchain.

O problema desta estrutura é que pode ser mais vulnerável a ataques informáticos e comportamentos de censura, por não ser verdadeiramente descentralizada. Durante a sua investigação, o Facebook alega não ter conseguido encontrar uma estrutura de blockchain “aberta” que pudesse assegurar escalabilidade para o número de transações que se esperam que a Libra venha a ter, pois supostamente, quantos mais nodes forem adicionados, mais lenta ficará a rede.

Debate das transações por segundo

As transações por segundo de diferentes moedas e blockchains tem sido um tópico de debate na comunidade, com a TRON e EOS – redes descentralizadas – a alegarem que conseguem processar mais de 2.000 transações por segundo.

No caso da TRON, não há estudos independentes que confirmem essa afirmação. No que toca à EOS, uma investigação independente concluiu que o verdadeiro número é de cerca de 50.

Em Janeiro de 2019 o CoinTelegraph fez uma revisão dos verdadeiros números das transações por segundo atingidas por diferentes criptomoedas, discriminando entre o valor prometido pelas equipas desses projectos e o valor realmente confirmado em testes independentes.

A conclusão dessa revisão pode ser consultada na seguinte imagem:

diferentes transações por segundo em criptomoedas

Isto parece confirmar as conclusões do Departamento Blockchain do Facebook, que (para desagrado de muitos) até que seja provado o contrário, quanto mais centralizada for a blockchain, maior será a sua escalabilidade.

Apesar disso, a Libra Association demonstra interesse em que a sua blockchain venha a ser “aberta” futuramente, baseada num sistema Proof-of-Stake, quando a tecnologia o permitir.

Incentivos

Apesar do número desconcertante de pessoas que o Facebook e restantes empresas da Libra Association atingem, um bom sistema de incentivos será a chave para uma boa captação de utilizadores para o uso da Libra. É de todo o interesse desta associação angariar programadores, comerciantes e clientes.

Por esse motivo, está planeada emissão de recompensas para quem consiga completar esse processo de angariação.

Empresas de software que queiram criar carteiras virtuais poderão recompensar utilizadores, com Libras gratuitas, por estes completarem processos de KYC (Know Your Customer) na sua aplicação, isto é, a submissão de documentos comprovativos de identidade.

Por cada transação que completem, comerciantes podem receber uma pequena comissão da mesma.

Igualmente interessante poderá ser o facto de empresas como Vodafone, Uber ou Spotify (que já têm o seu lugar garantido na Libra Association) virem a fornecer descontos a quem realize os pagamentos usando a Libra.

“Um desafio do Spotify e dos seus utilizadores por todo o mundo tem sido a falta de soluções de pagamento simples e acessíveis – especialmente para aqueles em mercados desfavorecidos. A parceria com a Libra Association, cria-se a oportunidade de atingir um mercado maior de pessoas, eliminando fricção e permitindo pagamentos em grande escala.”

Alex Noström – Chefe de Departamento de Negócios na Spotify

Privacidade

Privacidade Calibra

Não poderíamos falar sobre uma criptomoeda do Facebook sem tocar neste assunto.

Como já mencionámos, para usar a Libra, é necessário usar uma app que sirva como carteira virtual. Contudo, quando os utilizadores se registarem pela primeira vez, terão de passar pelo processo de submissão de documentos governamentrais (cartão de cidadão) de forma confirmar a sua identidade.

É um protocolo de anti-fraude padronizado hoje em dia em produtos regulados, usado por instituições financeiras como o Revolut ou, por exemplo, em casas de apostas com licença em Portugal.

Nesses mesmos contornos, essas carteiras serão ainda obrigadas a ter uma diligência apropriada com os seus clientes e reportar atividades suspeitas a autoridadades.

Esta vertente de segurança, aliada à simplificação e rapidez de conclusão de pagamentos entusiasma as grandes empresas de comércio eletrónico da Libra Association.

“Acreditamos que a blockchain vai beneficiar a indústria do comércio de luxo ao melhorar a proteção por IP, transparência no ciclo de vida do produto e, no caso da Libra, permitir um comércio global em fricção.”

José Neves – CEO da Farfetch

Dados pessoais do Facebook

Por definição, o Facebook não vai importar os contactos nem dados pessoais dos seus utilizadores, MAS, pode vir a perguntar se o desejas fazer. Por isso, muito cuidado ao aceitar alguma coisa além do estritamente necessário (como os Termos & Condições).

Do mesmo modo, não vai haver partilha de informação de transações com o Facebook, de forma a proibir:

  • a publicidade segmentada;
  • interferência com o feed de notícias pessoal na rede social;
  • qualquer benefício direto ao Facebook.

Poderá no entanto haver partilhas de dados nas seguintes situações:

  • investigação ou adoção de medidas (sendo esta partilha de forma anónima);
  • monitorização de fraudes;
  • a pedido de autoridades.

Na verdade, nem será preciso ter uma conta no Facebook ou Whatsapp para poder usar a Calibra ou qualquer outra carteira virtual.

Segurança

Quem não é novo ao mundo das criptomoedas já deve conhecer o ditado: “not your keys, not your coins“.

É uma frase que nos relembra que se não formos o detentor da chave pública e chave privada das nossas carteiras de criptomoedas, estaremos mais sujeitos a ataques informáticos (hacks) que possam comprometer a integridade das nossas moedas.

Por esse motivo recomenda-se que nunca sejam guardados grandes volumes de Bitcoin ou outra criptomoeda em plataformas como a Binance, Bitfinex ou BitMex (ou qualquer outra exchange). Em inúmeros casos essas plataformas são “hackeadas”, com utilizadores a registarem perdas significativas.

No entanto, também há desvantagens em ser o proprietário exclusivo do conjunto de passwords que nos dão acesso aos nossos bens. Existem múltiplos relatos de casos em que pessoas perderam a sua chave privada e nunca mais conseguiram recuperar as suas moedas. Ou de situações em que, a morte de uma pessoa responsável pela chave privada de uma carteira com mais 190€ milhões de euros em cripto-ativos, fez com que esse valor nunca mais pudesse ser recuperado.

Parece ser uma luta constante, no que toca a carteiras de criptomoedas, para determinar um equilíbrio ideal entre privacidade total, segurança e recuperabilidade de bens.

Calibra - carteira oficial do Facebook e Whatsapp
Calibra – a carteira oficial do Facebook e Whatsapp

No caso da Calibra, esta será uma carteira de custódia. Com isto não terão de apontar passwords longas e complexas, ou conjuntos de palavras para recuperar as vossas Libras. Carteiras como a Calibra serão responsáveis por fazer a gestão das chaves dos seus utilizadores.

Em caso de hack, burla ou perda irreversível de acesso à conta, a Calibra vai reembolsar as Libras perdidas, sempre que possível, através do seu serviço de chat disponível 24/7. Dado que a Calibra vai provavelmente ser a escolha principal no que toca a carteiras de Libra, esta protecção extra e atenção ao utilizador serão essenciais.

Numa fase inicial, a Calibra não servirá como fonte de renda. Porém, sabe-se que caso a mesma venha a ser um grande sucesso, poderão abrir-se portas para outras ferramentas financeiras tal como empréstimos ou investimentos – quiçá investimentos por crowdfunding, que tanta popularidade têm ganho atualmente.

Oposição

Naturalmente, o nascimento de uma criptomoeda para uso comercial global, desginada a “moeda do Facebook”, cujo círculo de membros fundadores engloba diversas entidades empresariais, é algo que vai encontrar oposição em várias frentes.

Bancos e governos já, como seria de esperar, já começaram a demonstrar o seu desagrado para com a iniciativa da Libra Association.

“Está fora de questão que a Libra venha a ser uma moeda soberada. Isso não deve, não pode acontecer (…) Este dinheiro vai permitir ao Facebook reunir ainda mais dados, o que aumenta a nossa determinação em regular estes gigantes da Internet.”

Bruno Le Maire – Ministro da Economia e Finanças de França

Le Maire chegou mesmo a fazer uma convocatória ao grupo G7 – os sete principais governadores de Bancos Centrais e guardiões do sistema monetário global – para seja preparado um relatório sobre o projecto para ser apresentado quando estes se reúnam em Julho. As suas preocupações incluem a privacidade, lavagem de dinheiro e financimento a terrorismo.

Markus Ferber, membro alemão do Parlamento Europeu, afirma que com mais de 2 mil milhões de utilizadores, o Facebook pode vir a transormar-se num “banco fantasma”.

Conclusão

O dinheiro como o conhecemos hoje pode estar prestes a mudar. É uma ameaça que já existia desde 2008, quando a Bitcoin veio ao mundo pela primeira vez, mas que foi agora exponencialmente potenciada pela iniciativa da Libra Association.

É um facto que quem vive confortavelmente em nações desenvolvidas desconhece as dificuldades sentidas por trabalhadores migrantes ou os que não têm acesso a serviços bancários.

Prejudicados por credores gananciosos e serviços de remessas com altas taxas, alvos de assaltos e deixados de fora dos serviços financeiros tradicionais, os pobres ficam mais pobres.

A Libra procura fazer o que já várias criptomoedas tentaram realizar antes dela: permitir que dinheiro seja enviado de forma confortável, barata e rápida – como se fosse simplesmente enviar uma mensagem. Desta vez com um imenso apoio corporativo por trás da iniciativa, que permite um alcance a milhares de mihões de pessoas com pouco esforço.

Entusiastas da Bitcoin e outras criptomoedas descentralizadas estão divididos entre desprezar a iniciativa pela centralização demonstrada (que mesmo assim parece ter supreendido pela positiva) e caráter corporativo; ou em apoiar o projecto na esperança que seja a “maré que levanta todos os barcos” no que toca à adoção das criptomoedas.

A Libra será oficialmente lançada em meados de 2020, e pelas palavras de Zuckerberg “ainda há muito mais para aprender antes que a Libra esteja pronta para ser lançada oficialmente“. Se milhões de pessoas vierem a usar a Libra pelo mundo todo, estaremos a testemunhar um importante passo no papel das criptomoedas na história da sociedade.



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