Tether (USDT) e Stablecoins – O Que São e Para Que Servem Estas Moedas?

Provavelmente já terás ouvido falar na Tether, a criptomoeda cujo valor está indexado ao dólar.

Talvez não saibas é que esta é apenas uma entre várias criptomoedas que fazem parte de uma categoria chamada stablecoins.

Isso mesmo – são criptomoedas estáveis, utilizadas, tal como a Bitcoin, num mercado tradicionalmente marcado por elevados níveis de volatilidade.

O número de stablecoins tem vindo a crescer e a tendência está longe de parar. Exchanges como a Binance, Estados como a China, ou grandes empresas como o Facebook, têm já nos planos o lançamento das suas formas de criptomoedas estáveis.

1. O Que São Stablecoins?

Para perceberes melhor o que são stablecoins, talvez seja melhor começarmos por explicar o problema que resolvem: a volatilidade.

O mercado das criptomoedas é particularmente marcado pela volatilidade de preços, sendo um exemplo perfeito a perspectiva histórica sobre o valor da Bitcoin:

  • 17 de dezembro de 2017: 18.200€
  • 17 de dezembro de 2018: 3.175€

É certo que o valor alcançado a 17 de dezembro de 2017 se tratou de um máximo histórico, e que uma correção de preço seria expectável, mas esta comparação homóloga ilustra a volatilidade de um ativo que, no espaço de um ano, chegou a sofrer uma desvalorização superior a 80%.

Claro que, para os investidores, é precisamente esta volatilidade que torna o mercado das criptomoedas interessante – o risco pode até crescer, mas os lucros potenciais são exponencialmente maiores. Veja-se o seguinte exemplo:

1. Investe-se 100€ em BTC quando a criptomoeda vale 0,10€ – em 2008;
2. Consegue-se com isso comprar 1.000 BTC;
3. Em 2019: 1 BTC = 9.000€;
4. No fim de contas fica-se com 9.000€ x 1.000 BTC = 9.000.000€.

Hoje em dia parece utópico, mas a verdade é que muitos investidores conseguiram somar ganhos desta dimensão. Por este motivo, o mercado das criptomoedas tornou-se uma opção consensual entre investidores.

Em contrapartida, é precisamente a volatilidade que continua a ser apontada por muitos como como uma barreira à adoção em massa das criptomoedas no mundo real.

É aqui que entram as stablecoins. Estas criptomoedas vêm introduzir o fator estabilidade, quer seja nos mercados de investimento, ou em transações no chamado “mundo real”.

O preço de uma stablecoin está vinculada ao preço de outro ativo, geralmente o de uma moeda fiat (USD, EUR, etc.), razão pela qual mantém um preço mais regular, independentemente da incerteza que possa haver no mercado.

A generalidade das criptomoedas não estão associadas a quaisquer outros ativos, pelo que os seus preços se regem pela leia da oferta e da procura.

2. O Que é a Tether (USDT)?

É impossível falar de stablecoins sem falar da Tether (USDT), a stablecoin mais popular e muito utilizada como moeda de troca em exchanges que não suportam dinheiro convencional, como a Binance, por exemplo.

A Tether é uma criptomoeda indexada ao Dólar americano, ou seja, 1 USDT = 1 USD.

A empresa responsável pela Tether, a Tether Limited, garante ter reservas em Dólares correspondentes ao total de Tether em circulação, servindo assim de colateral a esta criptomoeda.

Tether é uma stablecoin associada ao dólar americano
Tether foi concebida para manter sempre o mesmo valor.

3. Para Que Servem as Stablecoins?

Mas afinal, o que levou à criação de uma criptomoeda com níveis de volatilidade assim tão baixos? Como se beneficia disso?

A necessidade de moedas estáveis antecede a existência das criptomoedas. Na prática, faz parte da natureza humana a busca por estabilidade financeira – algo que seria impossível de alcançar caso a moeda que utilizamos, ou os preços com que nos deparamos fossem constantemente instáveis.

BCE supervisiona bancos mas não criptomoedas
Banco Central Europeu é o órgão responsável pela estabilidade do Euro.

É por isso que, no caso concreto da Europa, o Banco Central Europeu (BCE) tem o mandato claro de assegurar a estabilidade dos preços, já que, tanto uma inflação, como uma deflação, teriam efeitos perversos na Economia de qualquer país.

Para cumprir esse mandato, o BCE reserva as medidas de política monetária que considerar necessárias, sejam elas mais ou menos convencionais.

No caso das criptomoedas não há uma medida imposta por um regulador, mas há projetos que visam trazer estabilidade a este mercado altamente marcado pela volatilidade. Os problemas que as stablecoins pretendem resolver podem, na sua essência, ser encaixados em duas categorias principais:

  • Investimentos;
  • Transacções no mundo real.

3.1 – O papel das stablecoins para os investidores

Devido à grande volatilidade dos seus preços, um dos grandes desafios que as criptomoedas ainda enfrentam é provar que são eficientes reservas de valor. Como posso manter a longo prazo uma posição se esta corre o risco de perder valor a qualquer momento?

Na prática, uma stablecoin como a Tether resolve esse problema. A existência de uma criptomoeda à qual os investidores possam recorrer sem limites quando trocam numa exchange, significa que têm acesso a uma reserva de valor estável e ilimitada dentro da própria plataforma onde negoceiam.

Imagina que tens uma posição de Bitcoin e receias que o seu valor vá cair em breve.

Em vez levantares a tua posição de Bitcoin da exchange, podes simplesmente trocar por Tether. Desta forma, assim que tiveres confiante de que a Bitcoin ou outra criptomoeda vai subir, podes voltar a comprá-la com muito maior versatilidade.

E mais curioso nisto tudo?

Eventualmente pensarás que, pela popularidade que tem, a Bitcoin será a criptomoeda com maior volume diário, certo?

Errado. Essa posição é ocupada precisamente pela Tether, o que diz muito sobre a sua utilização como reserva e troca de valor.

volume de negociação da Tether (USD)

3.2 – O papel das stablecoins no mundo real

Uma das grandes questões sobre a adoção de criptomoedas para pagamentos tem a ver com a fixação de preços.

Como poderei pagar um produto no mundo real com uma moeda que tem um valor incerto? Qual é o valor do produto? O produto terá um valor fixo em BTC ou vou pagar em BTC um montante variável correspondente a uma moeda fiat (EUR, USD)?

Na maioria dos casos, os comerciantes têm optado por aceitar pagamentos em criptomoedas, associando o valor do produto ao preço em moeda fiat, de forma a contornar a volatilidade do preço pago pelo consumidor.

Porém, isso gera situações que nos deixam a pensar duas vezes…

O resultado é, por exemplo, a mítica história por detrás do Bitcoin Pizza Day. Em 2010 duas pizzas num montante total de 30$ foram pagas com o valor equivalente – naquela altura – em Bitcoin: 10.000 BTC. Hoje em dia valeriam mais de 100 milhões de dólares!

Bitcoin Pizza Day Portugal
Cada fatia de pizza custaria sensivelmente 5.000.000$, ao valor atual da Bitcoin

Desta vez, ficou a rir o comerciante e a chorar o cliente, já que pagou uma fortuna em Bitcoin. Mas a volatilidade no valor desta criptomoeda faz com que seja incerto dizer quem ganha ou perde a cada momento.

A adoção de criptomoedas estáveis para pagamentos do dia-a-dia tem como proposta de valor solucionar o problema da imprevisibilidade – com valores fixos, comerciantes e clientes podem usar os seus fundos sem pensar no amanhã, o que contribui para estimular este tipo de solução.

4. Que Stablecoins Existem?

De acordo com o CoinMarketCap, as 5 stablecoins com maior volume diário, ou seja, mais utilizadas, são:

À exceção da Dai, todas estas criptomoedas estão disponíveis na Binance, incluíndo a USD Coin, que é a stablecoin criada pelo Coinbase.

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5. Libra – A Stablecoin do Facebook?

Em 2019, o Facebook anunciou o lançamento da sua criptomoeda, a Libra, que vai ser uma stablecoin, cuja unidade será igualmente designada por LIBRA, representada pelo símbolo .

A Libra foi desenhada de forma a que o seu preço seja estável, razão pela qual o seu valor está indexado a um conjunto de depósitos bancários e títulos de curto prazo de Governo para uma série de moedas internacionais historicamente estáveis, incluindo:

  • Dólar americano ($);
  • Libra esterlina (£) – moeda do Reino Unido;
  • Euro (€);
  • Franco suíço (₣);
  • Iene japonês (¥).

No entanto não é garantido que as flutuações não existam. Uma vez que as moedas a que a Libra estará vinculada também sofrem variações, será de esperar que o preço da Libra venha a sofrer flutuações de preço também.

variação de preço Euro/Dólar
O par Euro/Dólar teve uma variação de preço de 21% ao longo de um ano e meio entre 2017 e 2018.

A composição deste conjunto de moedas poderá ser alterada pela Libra Association, caso necessário, para mitigar possíveis flutuações no preço da sua moeda, de forma a zelar pela estabilidade da mesma.

Ainda é desconhecido o valor exato inicial que a Libra vai ter no seu lançamento, mas antecipa-se que vá ser perto de uma das moedas governamentais mencionadas. A troca de Euros por Libras poderá ser feita nas próprias carteiras virtuais do Facebook e Whatsapp (a Calibra), ou em revendedores locais.

libra enfrenta desafios antes do lançamento
Libra deverá continuar a enfrentar Governos e Reguladores até ao seu lançamento.

Mas este projecto ambicioso ainda tem uma dura jornada pela frente…

O Facebook ainda tem de responder a reguladores de todo o mundo, sobre quais os objetivos e como funciona esta criptomoeda, que também já viu o ministro francês das Finanças dizer que, «nas condições atuais, não pode permitir» o seu desenvolvimento por ser uma ameaça à «soberania monetária» dos Governos.

6. Outras Stablecoins no Horizonte

O Governo chinês também tem nos planos um projeto que é em tudo semelhante à Libra do Facebook.

Quem o diz é um Vice-Diretor do Banco Popular da China. A moeda digital chinesa terá o cunho do Banco Central chinês e, por isso, será tão segura como o Yuan.

“Porque é que o Banco Central (da China) está a criar uma moeda digital mesmo quando os pagamentos electrónicos estão tão desenvolvidos? É para proteger a nossa soberania monetária e o estatuto legal da moeda. Temos de planear em antecipação de dias chuvosos.”

Mu Changchun, Vice-Diretor do Banco Popular da China

As declarações do Vice-Diretor do Banco Popular da China são particularmente curiosas quando comparadas com as do ministro francês das Finanças sobre a Libra, já que deixam clara a abordagem chinesa – preferem antecipar-se e criar um projeto de base.

A stablecoin chinesa poderá ser lançada ainda em 2019 e deverá ser apoiada pelo WeChat e pelo Alipay da Alibaba.

Criptomoeda da china será uma stablecoin parecida à libra
Banco Popular da China já trabalha na sua criptomoeda desde 2014.

Também a Binance lançará em breve uma stablecoin em tudo semelhante à Tether, uma vez que também terá uma relação de 1:1 com o dólar americano.

A Binance USD (BUSD) será, no entanto, lançada em parceria com a Paxos Trust Company, que também é responsável pela já abordada Paxos Standard, e que será a detentora das reservas ligadas à Binance USD. A nova criptomoeda já foi, inclusive, aprovada pelo Departamento de Serviços Financeiros de Nova Iorque (NYDFS).

7. Conclusão

  • As stablecoins são importantes para investidores que queiram gerir com versatilidade as suas posições dentro de uma exchange, já que permitem eliminar grande parte da volatilidade que caracteriza a maioria das criptomoedas;
  • Para pagamentos no chamado “mundo real”, as stablecoins permitem que os comerciantes não tenham de se preocupar se o que recebem hoje vai valer menos amanhã;
  • Atualmente já existem diversas stablecoins disponíveis, sendo que vários projetos estão em desenvolvimento, com a Libra do Facebook à cabeça, que pretende cumprir o desígnio de levar as criptomoedas para as massas.


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